Desde que me casei, meu marido e eu decidimos que quando tivéssemos filhos
eu não trabalharia mais a fim de cuidar pessoalmente da educação deles. A
princípio estávamos muito certos dessa ideia, e honestamente achei que me
sentiria confortável em ficar em casa ao invés de sair para trabalhar. No
entanto, porém, contudo, quando estava com cerca de 3 anos de casada, estava
muito cansada por conta de uma série de problemas pessoais (minha sogra e o tio
do meu marido tiveram câncer ao mesmo tempo, quase no mesmo lugar, e fizeram
todo o tratamento juntos. Meu marido é filho único, então nos dividíamos para
atender aos dois nas sessões de quimio, radio e as tantas consultas), então
tirei um período “sabático”, ou seja fiquei 6 meses em casa.
No começo, tudo ótimo, uma delícia poder assistir sessão da tarde todos
os dias, não ter horário para acordar e nem para dormir. Mas depois de um tempo
essa falta de rotina foi me deixando muito mal, até mesmo deprimida. Acabava usando
mal o tempo que tinha, e me sentia preguiçosa para tudo que era necessário
fazer. Cheguei à conclusão inevitável: Ainda que admirasse mulheres que gostam
de cuidar da casa, do marido e dos filhos, e fazer mais 547 coisas em casa, não
era para mim.
Engravidei 2 anos mais tarde, e a dúvida voltou a pairar. O que faremos?
Será que sou capaz de ficar feliz em casa, só cuidando do meu filho e do meu
marido, ou será que é mais prudente para todos nós que trabalhe fora para não
enlouquecer, rs? Será que me sentiria satisfeita em simplesmente ser mãe e
esposa, e não me sentiria frustrada em não ter corrido atrás de uma carreira?
Será que sentirei que tenho um lugar no mundo se ficar casa, sem um “trabalho
oficial”? Ou será que ficarei em paz de deixar meus filhos a maior parte do
tempo com outras pessoas que não eu? Será que não serei tomada pela culpa se o
mínimo der errado? Será que conseguirei conciliar família e trabalho?
Muitos serás para uma cabeça só. Acho que a maior parte das mães se
fazem todas essas perguntas quando grávidas ou quando a muito-bem-vinda licença
maternidade está para acabar. Well, well, well, após analisarmos com muita
cautela, avaliamos muitas questões e é essa discussão que quero propor.
Então vamos lá. A primeira questão que levantamos é se continuar
trabalhando compensaria financeiramente. Quando colocamos na ponta do lápis
todos os gastos que teríamos para ficarmos razoavelmente tranquilos que nosso
bebê estaria bem assistido e tudo estaria em ordem, além das questões da casa,
chegamos a conclusão que o valor que ganharia mal cobriria todas essas
despesas. Ou seja, estaria trocando seis por meia dúzia. Mesmo que sobrasse um
pouco, essa sobra teria que compensar muito, o que não era o caso.
Outra despesa que precisei levar em consideração (além de escola ou
babá, alimentação fora, alguém para cuidar da casa – especialmente das roupas
já que o pouco tempo que resta não iria querer gastar com isso e sim com o
Leandro) é a emocional. Qual o tamanho do meu desgaste emocional de imaginar
quanta falta estaria fazendo ao meu bebê? Como me sentiria se perdesse suas
primeiras palavras, seus primeiros passos, seus primeiros tudo? Eu seria capaz
de dar conta do recado sem que a culpa batesse à minha porta á todo instante?
Conclui que essa conta era bem alta, e não tinha certeza que conseguiria
pagá-la.
Além das “despesas”, passei a pensar sobre com quem deixaria o bebê. Colocaria
numa escolinha, contrataria uma babá ou deixaria com um parente? Deixar com um
parente é a medida mais barata, e poderia até compensar na minha primeira conta.
No entanto eu tenho certa resistência com isso. Penso nos dois lados da moeda.
Por um lado, o parente fica “preso” com um compromisso de extrema
responsabilidade, e no meu caso sei que meus parentes que poderiam ser
acionados (as vovós) já tem outros compromissos pessoais então sei que seria
custoso para elas abrir mão de outras coisas para me atender todos os dias, por
no mínimor 8 horas por dia. Por outro lado eu sempre quis criar meus filhos do
meu jeito, e deixando-os com outra pessoa não teria como garantir que isso
aconteceria, muito pelo contrário, é bem provável que vez ou outra ocorresse
alguma coisa oposta ao que eu faria e isso poderia gerar um desgaste familiar
bem grande. Não quis correr o risco. Preferi deixar as vovós só com o papel de
vovós mesmo, ao seja, dar uma leve estragadinha na criança (as vezes nem tão
leve assim, rs).
Bom, com os parentes riscados das possibilidades, sobrariam uma babá ou
escola. Seria muito bom ter alguém de confiança para ajudar e o bebê poder
ficar na casa dele, com as coisinhas dele para brincar, com horários mais
flexíveis, respeitando o seu ritmo, mas babá virou artigo de luxo, tanto quanto
emprega doméstica. Tentei encontrar uma boa faxineira desde que casei e das inúmeras
que passaram por aqui confiei somente em 2, que infelizmente me deixaram. Se
para contratar alguém para fazer faxina já é um parto, imagina então como seria
contratar alguém para cuidar do meu bem mais precioso? Cairia de novo na
questão de que meu filho sofreria mais influência de outra pessoa (e
consequentemente outro tipo de educação) do que de mim.
Hum, as opções estão se esgotando. Só sobrou escola. Para trabalhar fora
teria que deixa-lo o dia todo na escola, ou seja, pelo menos as 8 horas que eu
estivesse no trabalho. Eu fico com dó, você não? Pensava na cena de deixa-lo na
porta da escola dentro do bebê conforto, com todo aquele tamanhinho, e já
cortava meu coração. E nos dias de frio ou quando estivesse mais carentezinho?
Jesus amado, quem aguenta? Acho que choraria todos os dias até desidratar. Considero
verdadeiras guerreiras as mulheres que precisam passar por isso e conseguem.
Vocês tem a minha admiração, respeito e compaixão, porque imagino que não deve
ser nada fácil viver esse momento quase todos os dias. Que Deus abençoe o
esforço e dedicação de vocês!
Vendo tudo isso, talvez uma possibilidade seria fazer meio a meio –
deixar na escola meio período e deixar com alguém o restante do tempo. Acho que
muitas mães optam por essa e entendo o motivo, acho que de todas talvez seja a
mais funcional, já que não é tempo demais em nenhum dos momentos.
Por fim pensei algo que considero muito relevante: É necessário que eu
passe por isso? Acho que tem muitas situações sofridas que não temos opção,
temos que passar por elas, mas existem algumas que há meios de nos esquivarmos,
fazendo alguns ajustes. No meu caso chegamos à conclusão que não, que não era
necessário passar por isso. Poderíamos ajustar as nossas finanças a uma
realidade mais justa, mas menos sofrida. Abrindo mão de algumas coisas, era
possível que nos mantivéssemos pelo menos até o primeiro ano do Leandro. Então
parecia um bom plano.
Sobrou um ponto muito importante que também rondava minha mente: Será
que não me sentirei diminuída de alguma forma por não trabalhar fora? Será que
me sentirei improdutiva ou ociosa?
Hoje o Leandro completa 8 meses, e posso dizer com toda a convicção do
mundo que trabalho muito mais em casa do que quando trabalhava fora. Tempo
ocioso é um luxo que desfruto muito pouco (as vezes até gostaria, confesso!), e
me sinto muito produtiva! O meu trabalho tem reflexo direto no desenvolvimento
do meu filho, que tem sido perfeito! Corujisses à parte, o Lelê vai muito bem,
obrigada! Ele é lindo, esperto, inteligente, simpático, sorridente,
carinhoso... uma delícia completa eu diria! Não tenho como saber se seria todas
essas coisas se não estivesse com ele, mas sei com toda a certeza que eu não desfrutaria
com tanta intensidade tudo que desfruto hoje. Se é melhor ou não para os bebês
não temos como prever (muitos acham que sim, alguns acham que não), mas como
mãe posso dizer que é muito melhor para mim ver meu pitico crescendo e ganhando
habilidades em primeira mão do que qualquer outro resultado que poderia ter em
qualquer atividade profissional que tivesse. Em qualquer empresa eu sou
absolutamente substituível (as vezes para a empresa a substituição pode até
representar um grande avanço!) mas dentro da minha casa, na vida do meu filho e
marido eu sou insubstituível, então quanto mais de mim, melhor! Rs
Acredito que futuramente queira voltar ao mercado de trabalho porque
gosto de trabalhar fora e acho que com filhos maiores faz bem para todo mundo,
especialmente quando vão se tornando mais independentes da mamãe. Essa pausa
que estou dando não significa um “trabalhar é para os fracos”, significa “estou
trabalhando em outros projetos no momento”, pois estou trabalhando intensamente
em algo está alimentando muito a minha alma e tem repercussões permanentes e
eternas: minha família.
Para mim essa solução atendeu-me muito bem, e o que quero com toda essa
análise não é de forma alguma constranger ou criticar as mães que optam por
trabalhar fora. O que quero é, como disse na abertura do blog, gerar discussões
e dúvidas para que façamos escolhas pensadas e conscientes, ou seja, quero
pensar e te fazer pensar no que é melhor hoje. Suas conclusões podem ser diferentes
das minhas, mas se te fiz parar para pensar sobre tudo isso, atingi meu
objetivo.